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Interdisciplinaridade e Áreas emergentes

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elaborado com recurso a IA, com revisão posterior pelos peritos da equipa da Avaliação Estratégica

Mesa temática “Interdisciplinaridade e áreas emergentes” (22 de abril, 10h)

A discussão evidenciou um reconhecimento amplo da relevância da interdisciplinaridade e das áreas emergentes para responder a desafios científicos, tecnológicos, económicos e societais complexos. Contudo, foi igualmente assinalada a dificuldade de traduzir essa relevância em instrumentos de financiamento, modelos de avaliação, sistemas de classificação de áreas científicas e mecanismos de governação adequados.

Interdisciplinaridade reconhecida vs. dificuldades de operacionalização. Foi amplamente reconhecida a importância da interdisciplinaridade para responder a desafios complexos, embora tenham sido assinaladas limitações nos modelos de financiamento e avaliação, na organização dos painéis e na escala dos instrumentos disponíveis, que podem penalizar propostas verdadeiramente interdisciplinares.

Dinâmica bottom up vs. tentativas de definição top down. Vários contributos defenderam a preservação da liberdade científica, da criatividade e da emergência espontânea de novas áreas. Em simultâneo, foi reconhecida a necessidade de identificar capacidades nacionais, áreas de vantagem competitiva e domínios onde Portugal possa posicionar-se de forma mais robusta.

Alinhamento europeu vs. capacidade nacional. A articulação com instrumentos europeus foi considerada relevante, nomeadamente através de referências ao ERC, ao Horizonte Europa e a modelos como as ERC Synergy. Contudo, foi também sublinhado que a competitividade europeia depende de financiamento nacional continuado, de instrumentos preparatórios e de uma estratégia própria para reforçar capacidades nacionais.

Valorização económica e social da ciência vs. preservação da liberdade científica. A ligação entre ciência, desenvolvimento tecnológico, translação e criação de valor foi considerada relevante, em particular em áreas deep tech e biotech. Foram igualmente expressas reservas quanto a uma orientação excessivamente prescritiva ou demasiado centrada na ideia de ciência ao serviço da economia.

1) Interdisciplinaridade: centralidade reconhecida vs. modelos inadequados

Potencialidades

Existe um consenso alargado sobre a relevância da interdisciplinaridade para enfrentar desafios científicos e societais complexos, sendo identificada como:

  • condição para gerar inovação e novas áreas de conhecimento;
  • prática já presente em vários domínios e projetos;
  • eixo fundamental para articulação entre ciência fundamental, desenvolvimento tecnológico e aplicação.
  • mecanismo importante para aumentar competitividade internacional e capacidade de resposta a desafios complexos.
  • Foram referidos modelos e práticas internacionais que podem servir de referência (ex.: painéis híbridos, revisores externos, concursos temáticos), sugerindo base sólida para evolução do sistema.

Debilidades

Apesar deste reconhecimento, foram identificados vários obstáculos à operacionalização da interdisciplinaridade:

  • modelos de avaliação que penalizam projetos interdisciplinares (dificuldade em satisfazer múltiplos painéis);
  • ausência de critérios claros para avaliação da interdisciplinaridade (integração efetiva vs. mera agregação multidisciplinar);
  • inadequação dos instrumentos de financiamento (escala reduzida dos projetos, pouco compatível com verdadeira interdisciplinaridade).
  • Estas limitações traduzem-se numa baixa eficácia das políticas de promoção da interdisciplinaridade. Foi também sublinhado que a interdisciplinaridade e as configurações das suas colaborações não devem ser impostas artificialmente. Deve antes ser incentivada através de instrumentos simples, flexíveis e adequados à natureza dos projetos, permitindo que os promotores escolham os enquadramentos disciplinaresmais apropriados.

2) Orientação estratégica do sistema: maturidade no diagnóstico vs. falta de enquadramento

Potencialidades

  • A discussão sobre interdisciplinaridade e áreas emergentes cruzou-se com a questão da classificação científica, nomeadamente com a utilização das áreas FORD para a AI2 e com a forma como esta pode condicionar as opções sobre modelos de avaliação.
  • Foi sugerido que a identificação de áreas emergentes possa beneficiar de uma análise retrospetiva dos projetos FCT financiados, incluindo palavras-chave, áreas científicas principais e secundárias, padrões de combinação disciplinar e eventuais áreas que tenham ficado sem financiamento por não se enquadrarem adequadamente nos painéis existentes.
  • Foi igualmente referida a possibilidade de permitir que os projetos indiquem uma área principal e uma área secundária, bem como o recurso a modelos de avaliação mais flexíveis, combinando painéis disciplinares, painéis híbridos, revisores externos e escolha informada do painel pelos candidatos.
  • A questão central não será apenas criar painéis interdisciplinares, mas garantir que os critérios, avaliadores e modelos de classificação conseguem reconhecer a integração efetiva entre áreas, sem penalizar propostas que não correspondem aos enquadramentos disciplinares tradicionais ou já a enquadramentos interdisciplinares mas com definição top-down

A discussão revela uma elevada convergência analítica, nomeadamente quanto à necessidade de:

  • realizar um diagnóstico robusto das capacidades nacionais;
  • identificar áreas de vantagem competitiva;
  • compreender onde Portugal pode posicionar-se de forma mais robusta e articular investigação académica com tecido produtivo e impacto societal.
  • Foi também reconhecida a importância de reforçar a ligação entre ciência, tecnologia, economia e sociedade, incluindo domínios onde a investigação possa contribuir para gerar valor, reforçar capacidades tecnológicas e apoiar processos de translação e maior impacto.

Debilidades

Esta convergência contrasta com uma indefinição quanto ao quadro estratégico global, traduzida em:

  • ausência de visão clara de longo prazo sobre o papel do sistema de I&I;
  • incerteza sobre objetivos prioritários (competitividade, impacto económico, avanço do conhecimento);
  • dificuldade em enquadrar discussões operacionais (instrumentos, painéis, financiamento) sem esse referencial estratégico.
  • Esta lacuna compromete a coerência e eficácia das decisões de política. Esta questão sugere a necessidade de um enquadramento estratégico claro, mas suficientemente flexível para acomodar dinâmicas emergentes.

3) Áreas emergentes: potencial de dinamismo vs. riscos de definição centralizada

Potencialidades

As áreas emergentes são reconhecidas como resultado de:

  • novas questões científicas, métodos ou combinações disciplinares;
  • processos dinâmicos e evolutivos associados à liberdade científica;
  • interações entre conhecimento científico, desenvolvimento tecnológico e desafios societais em transformação.
  • Foi valorizada a necessidade de manter espaço para investigação e inovação bottom-up, permitindo o aparecimento espontâneo de novas áreas e ideias disruptivas, projetos de maior risco e propostas que ainda não encaixam claramente nas classificações ou painéis existentes.

Debilidades

Identificam-se riscos significativos associados à sua governação, incluindo:

  • dificuldade em definir áreas emergentes por via top-down, com risco de escolhas erradas ou desatualizadas;
  • necessidade de horizontes temporais claros, previsibilidade e revisão periódica;
  • ausência de mecanismos de revisão contínua e adaptação temporal;risco de concentrar recursos em áreas conjunturalmente valorizadas ou excessivamente dependentes de agendas externas, em detrimento de capacidades nacionais.
  • Acresce a limitação dos instrumentos existentes, que nem sempre estão adaptados à natureza exploratória, incerta e evolutiva destas áreas.

4) Questões transversais

A discussão apontou ainda para quatro questões transversais: escala do financiamento, continuidade do investimento nacional, ligação aos programas europeus e reforço dos mecanismos de translação e criação de valor.

A reunião apontou para a necessidade de uma abordagem equilibrada:

preservar a liberdade científica e as dinâmicas bottom up, mas assegurar instrumentos capazes de identificar e apoiar áreas de potencial estratégico;

promover a interdisciplinaridade, mas sem a transformar num requisito artificial;

alinhar com oportunidades europeias, mas mantendo investimento nacional suficiente para desenvolver capacidades próprias;

e criar mecanismos diferenciados para projetos exploratórios, interdisciplinares, tecnológicos e de translação.

Foi destacada a necessidade de reforçar mecanismos que permitam transformar conhecimento científico em desenvolvimento tecnológico, capacidade empresarial e valor económico. Esta dimensão foi particularmente associada a áreas deep tech (como a biotecnologia), à criação de empresas a partir da academia e à necessidade de atores capazes de apoiar a passagem entre investigação, desenvolvimento e mercado.